08 de setembro de 2010 | Atualizada às 01h15m
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Lavradores comemoram bodas de vinho



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Publicada: 07/02/2010

Texto: Moema Lopes / Fotos: Maria Odilia

Dezoito filhos, 56 netos, 61 bisnetos e três tataranetos. Esses são os frutos do casamento de 70 anos, completos no último dia 4, dos lavradores sergipanos do município de Itabi, Pedro Ladislau do Couto, 91 anos, e Edimeia Torres do Couto, 86 anos. As Bodas de Vinho do casal de idosos, que com certeza pode parecer inacreditável para quem vive em meio à modernidade do Século XXI, onde qualquer motivo banal é o bastante para separar uma união de anos, foi comemorada pela família com a celebração de uma missa na residência de um dos filhos no bairro Santos Dumont, em Aracaju.

Eles se casaram em 1940 e, como ainda eram muito jovens e de famílias pobres, não tinham nem aliança. “Tiveram que pedir emprestado a um casal lá de Itabi. Muitos se perguntaram como pode duas pessoas se casar desse jeito. Mas, eles, convictos do que queriam, mostraram que bem material não é tudo e que é o amor que prevalece”, disse uma das filhas do casal, Amélia Torres Couto Matos, de 52 anos. Em cada traço da feição dos membros dessa grande família é possível observar a alegria e a humildade de pessoas simples, criadas na roça, e que mesmo sem estudo, conseguiram seguir a vida e construir seus lares.

Amélia informou ainda que durante os preparativos para a comemoração das Bodas de Vinho dos pais foi ao município de Itabi fazer uma pesquisa entre os casais mais antigos da cidade para saber se havia algum com o mesmo ou mais tempo de casamento. “E tive a certeza de que só meus pais conseguiram essa dádiva. Pelo menos em Itabi eles são o casal mais antigo”, disse. Para que a missa de aniversário de casamento fosse realizada, ela digitou um relatório contando toda a trajetória de vida do casal. “E também porque como a família é muito grande eu precisava contar detalhadamente quantos netos, bisnetos e tataranetos existem, para poder dizer a eles, que já estão bem velhinhos”, falou.

Seu Ladislau era lavrador e para sustentar a família contou com o apoio de dona Edineia, que junto com ele percorria a pé quilômetros de estrada para chegar ao trabalho. “Eles não tinham nem um jumento para ajudar no transporte. E, muitas vezes, quando voltavam do trabalho traziam com eles a lenha para cozinhar o feijão, a farinha e algumas vezes um pedacinho de carne seca para completar a refeição de meio-dia”, informou. O primeiro filho do casal chegou depois de um ano de casamento. “E a partir daí a família foi crescendo a cada ano. Assim como os problemas financeiros também’, ressaltou. Como não tinham dinheiro para colocá-los em uma escola, foi dona Edineia, que já era alfabetizada, quem os ensinou a ler e escrever.

“Quando completaram dez anos de casados, tinham casa para morar e vários filhos”, declarou Amélia Torres. Mas, nesse mesmo período, eles perderam um filho de sete anos de idade, em um acidente de trânsito. “Ele estava voltando da cidade junto com outro irmão nosso e morreu atropelado. Com o susto, minha mãe, que estava no final de uma gestação, acabou perdendo outro filho. O bebê nasceu morto”, disse Pedro Ladislau Filho, de 55 anos, um dos primeiros filhos de dona Edineia e seu Ladislau. Aos 15 anos de casados, outra surpresa desagradável marcou a vida dos dois: no caminho para a roça, dona Edineia levou um tropeço, caiu com o rosto no chão e perfurou o olho direito. “Ela pegou uma infecção e acabou perdendo a visão desse olho”, disse.

Setenta anos de casamento são uma vida. E em uma cidade do interior, sem muitos recursos, as dificuldades marcaram a existência do casal de idosos. Mas, o mais interessante é que mesmo com todos os problemas financeiros a família cresceu e progrediu unida. “Todas as bodas de casamento dos nossos pais a gente comemora. E eu e meus irmãos, mesmo sem estudo, porque ninguém aqui é formado, conseguimos vencer na vida graças à educação rígida que recebemos. Como não tinham dinheiro para colocar a gente na escola, ao tempo em que nos ensinavam a ler nossos pais também nos ensinavam a trabalhar”, contou Amélia. Hoje, dos 18 filhos do casal, 13 estão vivos.

“Minha família é muito unida, desde nora e genros, aos irmãos, filhos, tios, netos e tataranetos. Minha mãe foi quem me ensinou a ler, escrever e trabalhar para poder melhorar de vida. Foi muito grande a luta deles para criar a gente. Mas, com o amor que eles sentem um pelo outro e por Deus, todos os 13 filhos seguiram bons caminhos”, declarou Pedro Ladislau, que hoje mora em Aracaju e trabalha como vigilante. Segundo ele, até hoje, aos 70 anos de casados, dona Edneia e seu Ladislau não se desgrudam. “A gente pede saúde, paz e paciência a Deus porque hoje eles estão muito velhinhos. E, mesmo nessa idade, ainda têm medo de um perder o outro”, completou Amélia.

Bodas

A palavra boda vem do latim vota (plural de votum – promessa), referida ao fato de fazer os votos matrimoniais. Com a confusão do neutro em latim vulgar, perdeu seu sentido e foi confundido o V por B. Uma falsa lenda conta que havia o costume de matar um cabrito para o churrasco nas comemorações de aniversário de casamento. Com o tempo, o cabrito foi substituído pela fêmea do bode, a “boda”, cuja carne era muito mais macia.

Para cada ano de casamento existe um material que representa uma nova etapa. É tradicional na cultura ocidental comemorar com bodas os eventos relativos ao casamento e com o jubileu outros fatos marcantes da vida social. Na joalheria, tradicionalmente, são produzidas as alianças de bodas de prata e bodas de ouro. Para as demais bodas, geralmente são confeccionados anéis utilizando os materiais ou as pedras correspondentes. Aos 25 anos de casados, comemoram-se as bodas de prata. Aos 50, vêm as bodas de ouro e aos 70 as de vinho.

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