03 de setembro de 2010 | Atualizada às 01h14m
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Até crianças já consomem crack em SE

Publicada: 18/01/2009

Texto: Edjane Oliveira e Ailton Sousa

Aos nove anos, Adriana* teve seu primeiro contato com as drogas. Em pouco tempo, o que era curiosidade com relação às novas sensações trazidas pelo uso se tornou dependência, que a cada dia foi se agravando, até chegar ao ponto de sua mãe não saber mais o que fazer para manter a filha longe do vício do crack. Desesperada, ela procurou ajuda na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente Infrator. A menina chegou a ser levada para uma comunidade terapêutica. Não passou nem um dia. Em menos de 24 horas a garota fugiu.

Hoje, aos 11 anos, Adriana vive junto com traficantes de um conjunto da região da Grande Aracaju. Dela, a mãe praticamente não tem notícia e recentemente chegou a ser ameaçada de morte por traficantes que vivem com sua filha. No interior a situação se repete. Em Nossa Senhora da Glória, uma família já não sabe mais o que fazer com uma criança também de 11 anos. O garoto dependente do crack tem furtado todos os objetos de valor da casa, situação que levou uma tia a pedir ajuda à polícia e à Justiça. “Perguntei se podia trancá-lo em casa, mas disseram que se fizesse isso eu é que estaria cometendo um crime”, disse a mulher.

O uso do crack tem se tornado comum entre adolescentes e até crianças em Sergipe. No Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil/Álcool e Outras Drogas Vida, responsável pelo atendimento a esses pacientes na rede pública de Aracaju, já foram atendidos usuários com idade de oito anos que fazem uso de crack. Cerca de 20% dos 100 usuários atendidos atualmente no Caps Infantil fazem ou já fizeram uso de crack.

O número tem crescido gradativamente nos últimos anos. Em 2007, o percentual de assistidos que afirmavam usar crack era estimado em 8%, tendo apenas dois casos confirmados. Segundo o apoiador institucional do Caps Infantil, Dagoberto Machado, outro fator para isso é a diminuição de relatos do uso de cola, sustância que predominava entre crianças e adolescentes.

Saúde pública

O envolvimento com o crack tem se tornado um problema de saúde pública. “O uso e a dependência do crack é um problema e deveria ter hoje uma preocupação maior das autoridades tanto quanto se tem com outras endemias. É, sem dúvidas, um problema de saúde pública e não é tratado dessa forma, sendo visto apenas como um problema policial ou de ordem pessoal”, disse o delegado da Criança e do Adolescente Infrator, Paulo Ferreira.

O coordenador do Caps AD também concorda que o uso de crack é um problema de saúde, mas não apenas ele. “O uso de drogas, lícitas ou ilícitas, é também uma questão de saúde pública”, disse. Ele entende que falar e construir ações sobre drogas exige uma prioridade de agenda dos mais diversos órgãos e setores: saúde, educação, assistência social, segurança, Justiça e a sociedade civil.

Na rede pública, o atendimento a usuários de drogas é feito pelos Caps, dentro da filosofia de redução de danos, ao contrário da abstinência. O serviço disponibiliza para o cuidado uma equipe multiprofissional, composta por auxiliares de enfermagem, enfermeiros, psiquiatras, professoras de educação física, oficineiros, psicopedagogas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais. São ofertadas oficinas terapêuticas, visitas domiciliares, atendimento em grupo, individual e para família.

Segundo Dagoberto Machado, o principal recurso terapêutico do Caps I/AD tem sido as parcerias intersetoriais na tentativa da reativação do meio social da criança, seja na família ou na sociedade, a exemplo a inserção na escola ou em cursos profissionalizantes. Para ele, como a questão da infância e adolescência extrapola o setor saúde, é importante que se faça um esforço de organizar as diversas entidades e organizações que se colocam em defesa da criança e do adolescente, como o Ministério Público, Judiciário, Segurança Pública e Assistência Social, entre outros, para a efetivação da Política Municipal de Saúde Mental para este público.

Entretanto, para quem tem um filho ou parente mergulhado no vício, esse modelo de atendimento a usuários de drogas que já se encontram num estágio de dependência não funciona. “Como é que a pessoa chega para um usuário e diz que ele não é obrigado a se submeter ao tratamento, a não ser que concorde”, questionou o pai de um adolescente 17 anos que chegou a ser encaminhado para o Caps e que atualmente se encontra em tratamento numa clínica de recuperação.

Diante da experiência adquirida no dia-a-dia de atendimento a crianças e adolescentes, o delegado Paulo Ferreira acredita que o serviço do Caps tem seu papel, quando o grau de dependência da droga não é alto e a pessoa aceita se submeter ao tratamento. Entretanto, avalia, quando a pessoa ainda acha que tem controle sobre a droga ela não aceita o tratamento do Caps.

“As pessoas que estão no fundo do poço precisam sair do meio em que estão vivendo para reduzir o risco a que estão submetidas e esse trabalho não pode ser pelo Caps, já que todo dia o paciente retorna para casa”, afirmou. Paulo Ferreira defende que sejam criadas mais comunidades terapêuticas para tratamento dos usuários. “Elas são úteis porque tiram o sujeito do meio das drogas no momento em que ele está correndo risco e dá oportunidade dele se refazer e encontrar forças para lutar contra as drogas”, disse.

Os nomes utilizados na reportagem são fictícios, para a segurança dos entrevistados.

Furtos bancam o vício

Para manter o vício, alguns usuários acabam praticando pequenos furtos e roubos. “Quando esgotam as possibilidades de fazê-lo dentro da própria casa, fazem na rua. Infelizmente essa é a realidade”, disse o delegado da Criança e do Adolescente Infrator, Paulo Ferreira. Ele disse que já recebeu adolescentes que chegam a consumir em apenas um dia R$ 150 em pedras de crack.
De acordo com o coordenador geral de Medidas Socioeducativas, coronel Henrique Rocha, não é possível afirmar quantos dos 125 adolescentes que atualmente cumprem medidas nas quatro unidades de Sergipe praticaram ato infracional motivados pelo consumo de drogas. Entretanto, em 2008, dos 225 adolescentes que deram entrada na Unidade Socioeducativa de Internação Provisória (Usip), quatro foram apreendidos por tráfico de drogas, ou seja, menos de 2%.

Embora a porcentagem de adolescentes envolvidos com o tráfico seja reduzido, uma pesquisa realizada no mês de julho pela 17ª Vara Cível da Comarca de Aracaju – Juizado da Infância e Juventude com 180 adolescentes em conflito com a lei e que são acompanhados pelo Núcleo Técnico Operacional da Vara apontou que 65% deles usam algum tipo de droga lícita ou ilícita, sendo que a maconha é consumida por 52%.

Com relação aos atos infracionais praticados pelos adolescentes, foi verificado que 86,3% foram contra o patrimônio. Muitos desses roubos e furtos foram praticados para a aquisição da droga. O uso da droga é responsável também para o abandono do cumprimento das medidas sócioeducativas, principalmente entre os que usam crack.

Droga e crimes

O apoiador institucional do Caps Infantil, Dagoberto Machado, destaca que é um erro atrelar o uso do crack e o envolvimento em algum tipo de crime como se fosse uma relação de causa e efeito. Ele entende que a exposição de crianças e adolescentes a situações de risco, as relações familiares e ausência de um suporte social podem contribuir para que as duas situações aconteçam, mas nem sempre uma acontece em decorrência da outra.

“Observamos que pessoas de todas as classes sociais e de todas as faixas etárias podem fazer uso de drogas e que na maioria das vezes tal uso não incorre em dependência e não está atrelado à criminalidade”, afirmou, ressaltando que o álcool e o tabaco, tipos de droga lícitas que se têm mais contato, são as que mais matam no Brasil.

O coordenador do Caps AD, Wagner Morais, também avalia como equivocado associar o usuário à prática de crimes, porque muitas vezes essas duas práticas estão tão próximas que se confundem. “Quando essa associação é feita assim, prestamos um desfavor ao usuário de drogas, que carregará mais um estigma: o de usuário de droga e de criminoso”, disse Wagner.

No caso dos dependentes de crack, essa associação acontece como característica do funcionamento da droga e os processos por ela disparados. “Vivenciamos em Aracaju um aumento no número de mulheres que estão trabalhando como profissionais do sexo por conta do uso de crack, enquanto para os homens uma alternativa é a prática de roubos e assaltos”, disse.

O crescimento do uso de drogas em Sergipe se dá por vários motivos. O pouco efetivo de
policiais federais para cumprir o seu papel constitucional de vigilância das fronteiras, portos e aeroportos seria um deles, o que acaba sobrecarregando as polícias estaduais no trabalho de combate ao tráfico de drogas.

Outro fator seria a perda da Polícia Civil, há algum tempo, em suas delegacias, das equipes de investigações, responsáveis pelas prisões de traficantes em suas jurisdições. “Hoje só se fala em ‘inteligência’, resumindo o significado dessa palavra às escutas telefônicas, o que é um grave equívoco”, disse uma fonte ligada à Segurança Pública.

Os pequenos crimes praticados nos bairros, a exemplo de assaltos, furtos e roubo de veículos, bem como assaltos a ônibus, geralmente também estão ligados ao tráfico local. Este é um dos motivos para que a população clame por uma presença maior da Polícia Militar nos bairros, para inibir esse tipo de crime.

Situação foge ao controle da família

São cada vez mais comuns relatos de familiares sobre os efeitos devastadores do uso do crack. Com freqüência, o delegado da Criança, Paulo Ferreira, recebe famílias que vão em busca de ajuda, para tentar livrar filhos adolescentes e crianças do crack que tem assolado Sergipe. Alguns chegam ao extremo de pedir até que sejam apreendidos, pois a situação já fugiu do controle.
É o caso da autônoma Tânia Teixeira*, que esta semana foi até a Delegacia Especial de Proteção à Criança e ao Adolescente mais uma vez prestar queixa contra o irmão Ricardo*, de 17 anos, usuário de crack, pelos constantes furtos feitos na sua casa e dos pais para manter o vício. Só na casa de Tânia ele já praticou oito arrombamentos para levar objetos de todo tipo, como botijões de gás, liquidificador, aparelho de TV, secador, celular, perfume e até mesmo creme para cabelo. Esta semana, em apenas um dia, foram dois arrombamentos. Ele chegou a furtar um aparelho toca-CD, que o pai havia comprado antes mesmo de pagar a primeira parcela, para trocar por crack.

“Ele tem que pagar pelo que faz, já que não quer fazer tratamento. O que eu não posso é trabalhar para manter o vício dele. Trabalho durante todo o dia e não sei o que vou encontrar quando chegar em casa”, disse Tânia. Por conta das ações do adolescente, uma irmã chegou a se mudar do bairro onde vivem, na Coroa do Meio. A família de Ricardo só descobriu que ele era usuário de drogas depois de três anos. A dependência, que começou aos 13 anos com a maconha, passou para a cocaína e depois, com mais força, para o crack.

Luta contra a droga

A tentativa de salvar o filho adolescente do vício encorajou o comerciante José Raimundo Santos* enfrentar traficantes e peregrinar por pontos de vendas de drogas da capital para resgatar objetos penhorados em troca de crack. “A pior desgraça do mundo é esse crack, que está destruindo as famílias e os adolescentes. Só quem vive esse problema sabe o que eu já passei. A destruição de uma família é um filho viciado”, desabafou.

O comerciante contou que o filho já usou como pagamento da droga de panelas a uma moto, várias vezes resgatada por ele nas bocas-de-fumo em Aracaju. Em uma das vezes, um traficante chegou a cobrar 15 vezes mais pelo que o adolescente havia consumido. A dívida, que era de R$ 200, subiu para R$ 3 mil. “Negociei com o traficante e paguei R$ 1,5 mil. Ele ainda disse que se denunciasse mataria a mim ou meu filho”. Raimundo defende que a polícia e as autoridades de saúde façam uma força tarefa para combater o crack e os efeitos dele.

Comentários do Conteúdo

adriano
18/01/2009 23:30
Parabéns aos jornalistas. Eles souberam traduzir em palavras o drama de milhares de famílias que sofrem e estão perdendo a batalha para o crack. Sem uma política de combate ao tráfico e apoio ao usuário, os governos federal, estadual e municipal abandona crianças e adolescentes nas mãos de traficantes. Até quando fecharemos os olhos para essa realidade assustadora. Será preciso que cada família sergipana tenha um viciado em crack para as autoridades resolverem reagir.
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Daniel
19/01/2009 02:02
A PC através de sua SI (serviço inteligencia) tem feito um bom trabalho prendendo alguns traficantes. O problema e que o CONSUMO DO CRACK CONTINUA CRESCENDO EM SERGIPE ASSIM COMO AUMENTA CADA VEZ MAIS O NÚMERO DE BOCAS DE FUMO NO ESTADO. Assim sendo o trabalho da SI da PC de Sergipe se torna ineficaz! Precisamos voltar a PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS DE MANEIRA SERIA E NÃO ATRAVÉS DE PROGRAMAS COMO O PROERD DA PM QUE E PURO OBA OBA!!! ALO MP DE SERGIPE!
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2 comentários
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